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Hora da tecnologia na mobilidade urbana

Por Luisa Feyo Peixoto Guimarães, Especialista de Mobilidade da Quicko

A Covid-19 afetou os padrões de deslocamento da população. Algumas cidades ao redor do mundo, assim como a capital fluminense, já começaram a atentar aos impactos que o distanciamento social pode ter na gestão da mobilidade urbana a longo prazo.

Em 2020, quando as cidades decretaram restrições para conter a pandemia, o fluxo de passageiros no transporte coletivo caiu entre 60% e 80%. Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), os ônibus urbanos receberam 30 milhões de passageiros a menos entre março e junho — um prejuízo de R$ 3,72 bilhões.

No Rio de Janeiro, cidade com mais de seis milhões de habitantes, houve, em 2019, mais de 12 milhões de viagens de ônibus, com mais de um bilhão de passageiros transportados e um percentual de integração de 17%. Desde o decreto oficial da pandemia até 14 de setembro de 2020, a SuperVia, que opera trens urbanos que ligam 11 municípios da região metropolitana do Rio, registrou perda de 47,2 milhões de passageiros e prejuízo de mais de R$ 204,5 milhões. Já o MetrôRio perdeu 18,6 milhões de embarques por mês, em média — uma redução diária de cerca de 70% do seu público. O prejuízo acumulado foi de R$ 190 milhões até julho de 2020.

A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) aponta que, no Brasil, o transporte coletivo é responsável por 50% das viagens motorizadas. Há uma insegurança com o futuro, já que o uso de automóveis do transporte coletivo pode continuar sendo evitado mesmo após o término do isolamento. As pessoas poderiam voltar aos automóveis privados, o que seria um retrocesso para políticas de mobilidade mais sustentáveis, igualitárias, eficientes e seguras.

A atual crise pode trazer novos horizontes para modais mais sustentáveis e individuais, como, por exemplo, as bicicletas. Em algumas cidades, as pessoas estão trocando o transporte coletivo por elas e, assim, evitando o contato social. Em Nova York, o sistema de bicicletas compartilhadas Citybike viu um aumento de 67% das viagens em março de 2020.

As plataformas digitais baseadas em MaaS (Mobility as a Service) facilitam o acesso e o pagamento a diversos tipos de serviços de transporte — públicos e privados. Essas plataformas podem impactar positivamente no gerenciamento da mobilidade, dosando os níveis de aglomeração e o uso de modais individuais. Uma pesquisa do Quicko App mostra que informações em tempo real mudam os hábitos dos usuários. Trinta e nove por cento dos entrevistados disseram reduzir o tempo no ponto do ônibus ao consultarem o aplicativo, enquanto 18% disseram evitar situações de aglomeração. Doze por cento dos respondentes sentem mais confiança no uso do transporte coletivo tendo essas informações, e 11% mudam o trajeto quando necessário.

Com o uso de inteligência e dados fornecidos pelas operadoras de transporte, essas plataformas podem direcionar fluxos para os diversos meios de transportes de modo integrado e inteligente, auxiliando o usuário em sua tomada de decisão.

Oferecer e facilitar o acesso aos diversos serviços de transporte já é a aposta atual de várias cidades para reduzir a necessidade e atratividade do automóvel privado — que representa nível de ociosidade e de custo altos. Em Helsinque, capital da Finlândia, onde uma plataforma desse tipo já é utilizada (Whim), o uso de plataformas integradoras de mobilidade pode reduzir em 38% o uso de automóvel privado.

Aliadas à tecnologia, políticas públicas de incentivo às soluções de mobilidade mais sustentáveis e seguras são importantes. É preciso pensar em investimentos em monitoramento e coleta de informações em tempo real para a eficiência da gestão da mobilidade.

Em um momento de incerteza e mudança de cenário, os esforços de governos e empresas de mobilidade devem estar alinhados para a construção de políticas para o transporte. Assim, poderemos minimizar os impactos negativos e potencializar as oportunidades dessa crise global para a mobilidade urbana.

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